Projeto Contemplus

mancini

Professor: Orlando Marcos Martins Mancini

Graduado em Instrumento (violão), Composição e Regência pela FAAM - Faculdades de Artes Alcântara Machado
Especilizado em Metodologia do Ensino Superior pela FMU - Faculdades Metropolitanas Unidas
Mestre em Artes - Habilitação em Música e Tecnologia pela UNESP - Universidade Estadual de São Paulo
Doutor em Música - Habilitação em Música de Cinema pela UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas

Contraponto

Introdução ao Estudo do Contraponto

Conceitos Preliminares

O método de Fux: Gradus ad Parnassum

Buscando por uma solução mais ampla e profunda em relação ao problema do estudo da música, em 1725, J. J. Fux, então com 65 anos, publica, em Latim, o seu método de ensino-aprendizagem musical: Gradus ad Parnassum. Ele apresenta e justifica assim o seu "método":

Gradus ad Parnassum J. J. Fux

... comecei, vários anos atrás, a desenvolver um método similar ao pelo qual as crianças aprendem primeiro letras, depois sílabas, depois combinação de sílabas e finalmente, como ler e escrever. E isso não foi em vão. Na utilização desse método, pude observar que os alunos fizeram um progresso assombroso em curto espaço de tempo.
Então, pensei que prestaria um bom serviço à arte se o publicasse para o beneficio dos jovens estudantes, e repartisse com o mundo musical a experiência de quase trinta anos, durante os quais servi três imperadores (pelo que devo, com toda modéstia, meu orgulhar). Além disso, como Cícero cita de Platão: "Nós não vivemos apenas para nós mesmos; nossas vidas pertencem também ao povo, aos nossos pais e a nossos amigos."

J.J. FUX - 1725 - Gradus ad Parnassum
Fux prossegue:

Para o bem da melhor compreensão e maior clareza, eu me servi da forma de diálogo.
Por Aloysius, o mestre, refiro me à celebre Luz da Música de Praeneste (ou como dizem outros, Praeeste [Palestrina]), Palestrina

a quem devo tudo que sei desta arte, e cuja memória não cesso de estimar com um sentimento de profunda reverência.
Por Josephus tenho em mente o aluno que deseja aprender a Alunoarte do contraponto.
No mais, não se ofenda com a simplicidade de meu estilo, pois não clamo por outro latim que a do viajante retornando a uma terra a qual uma vez chamou de lar. E eu preferiria antes ser inteligível a parecer eloquente. Adeus... aproveita e sê Indulgente. Se, leitor benevolente, achares desvios da maneira adequada de se apresentar algo, confio que haverás de aceitá-los com a mente tranquila.

O início do diálogo entre o mestre (Aloysius) e o discípulo (Josephus):
O final do diálogo da introdução de Fux que também se afina com esta nossa introdução:

Josephus – Antes de iniciar nossos exercícios, venerável mestre, poderia ainda vos perguntar o que se entende pelo termo contraponto? Tenho ouvido essa palavra usada não só por músicos, mas também por leigos.

Aloysius – Tua questão é pertinente, esse é exatamente o primeiro tópico de nossos estudos e trabalhos. É necessário que saibas que em tempos de outrora, ao invés de nossas notas modernas, os pontos [punctus]eram utilizados. Assim se costumava chamar uma composição, na qual pontos foram colocados contra pontos - contrapunctus.
Esta maneira é ainda seguida hoje, mesmo que a forma das notas tenha mudado. Pelo termo contraponto, portanto, entende-se uma composição escrita estritamente de acordo com certas regras técnicas. O estudo do contraponto, como gênero, compreende diversas espécies as quais vamos considerar uma por vez...

Início do Gradus ad Parnassum (1725) de J. J. Fux
The Study of Counterpoint

O Gradus ad Parnassum

Alfred Mann (o tradutor do Gradus ad Parnassum de Fux para o Inglês), apresenta em seu prefácio do livro referências históricas sobre a importância do método utilizado por Fux.

O Estudo do Contraponto do Gradus ad Parnassum de J. J. Fux Card image cap

Contraponto!

Arnold Schoenberg

o autor do livro Exercícios Preliminares em Contraponto (um dos principais livros do curso), também adota o método por espécies de J. J. Fux, enfatizando o seu propósito como um método de treinamento e não somente como uma teoria.

Ler o Texto Completo

Algumas afirmações de Schoenberg são muito elucidativas:

Schoenberg

[...] a teoria do contraponto será tratada, aqui, de forma totalmente diferente. Não será considerada, de modo algum, uma teoria, mas um método de treinamento, cujo propósito principal será ensinar o aluno de forma a torná-lo apto a utilizar posteriormente seu conhecimento quando compuser [reger, tocar ou cantar].
Assim, será aqui visado não apenas o desenvolvimento da habilidade do aluno na condução de vozes, mas também a sua introdução aos princípios propriamente artísticos e composicionais [da música], de modo que ele reconheça até que ponto esses princípios são duradouros na arte [musical].

Schoenberg - Exercícios Preliminares em Contraponto

Ricardo Rizek

O professor Ricardo Rizek costumava dizer em relação ao estudo do contraponto que o entendimento e a consistência do resultado do movimento na elaboração das melodias em conjunto se mostra enquanto se oculta e/ou se oculta enquanto se mostra.

Ele completava com:

RicardoRizekUm exercício de contraponto é um sistema que tem uma fluência que nós podemos chamar de fluência horizontal [melódica]. E essa fluência intrínseca, ao mesmo tempo em que desvela (por que é isso que a melodia faz: expõe, mostra), esconde. Não são incomuns atualmente numa psico-musicologia a comparação da melodia com a superfície e da harmonia com a profundidade. Então, quando nos perguntamos o que a melodia mostra, podemos dizer: ela mostra a harmonia. Ela expõe, no nível da superfície, a harmonia. Porém, se assim ela faz, ao mesmo tempo em que se expõe – porque expõe e mostra – esconde. Vejam, por exemplo, o quarto movimento da 9ª Sinfonia de Beethoven, que é tão conhecido, tão popularizado: se aquele tema que tem um poema que fala da paz e da amizade não fosse importante, Beethoven jamais o teria escrito. Ele teria feito apenas aquele fundo harmônico que nós podemos lembrar por causa da orquestra. Ao mesmo tempo em que a melodia mostra – coloca no nível da superfície e evidencia a harmonia, uma ideia profunda – não é verdade que uma pessoa pode caminhar pelas ruas assobiando isso, e, portanto, tendo isso como um instrumento de esquecimento, de velamento?

Ricardo Rizek - Aulas de Contraponto