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Hoje é dia: 20/09/2021



Contraponto

A arte de combinar duas [ou mais] linhas musicais simultâneas. O termo deriva de contrapunctum - 'contranota'. Foi utilizado pela primeira vez no século XIV quando a teoria do contraponto começou a se desenvolver da teoria mais antiga do discantus. Quando uma parte é acrescentada contra uma outra, já existente, a nova parte está 'em contraponto com' ela. O termo é reservado, algumas vezes, à teoria ou estudo de como uma parte pode ser acrescentada a outra, porém, na sua utilização moderna, o termo não parece ser distinto de 'polifonia' (literalmente significando 'muitos sons'). Existe, entretanto, uma tendência a aplicar esse último ao que se refere ao século XVI (o período de Palestrina) e contraponto para o início do século XVIII (o tempo de Bach).

Muitos dos primeiros teóricos musicais estudaram e discutiram como acrescentar uma ou mais linhas melódicas musicais a uma ou mais linhas musicais já existentes, por exemplo Tinctoris (1477), Gaffurius (1496) and Zarlino (1558). O uso do contraponto na composição musical atingiu grande força no final do século XV e no século XVI em trabalhos de compositores como Josquin, Palestrina, Lassus e Byrd. O contraponto persistiu através do século XVII e muito do XVIII, especialmente na música da igreja, normalmente utilizando imitação (processo altamente polifônico onde uma parte ou voz repete idéias melódicas realizadas anteriormente por outra parte ou voz). Entre as principais formas da música contrapontística estão o Ricercare, a Canzona e a Fuga. A grande referência na escrita contrapontística é encontrada na música de J.S. Bach.

No tempo de Bach, o crescente interesse na música do passado conduziu à decodificação e idealização do que supostamente seria o estilo da música de Palestrina. Influente nesse sentido foi J.J. Fux, que utilizou um sistema conhecido como as 'espécies' do contraponto no qual os estudantes aprendiam a escrever música progressivamente com uma relativa facilidade. Nesse sistema, uma melodia era dada ao aluno (um Cantus Firmus, ou uma melodia tradicional conhecida) à qual o aluno acrescentaria uma outra melodia primeiramente com notas de mesmo valor, então duas (ou três) notas contra cada nota da melodia dada, depois quatro (ou mais), então uma parte sincopada e, finalmente, a combinação de todos estes procedimentos, de tal modo que a melodia adicionada torna-se livre (ornamentada ou florida). Depois das duas melodias o processo era repetido com três, quatro e mais melodias. Os termos Contraponto Duplo (Triplo, etc.) são utilizados para contrapontos cujas partes podem ser ouvidas de forma invertida, i.e. qualquer melodia pode ser a superior, intermediária(s) ou inferior; este processo também é conhecido como Contraponto Inversível.

Os compositores do período clássico foram treinados por este método, e nos trabalhos maduros de Mozart e Haydn o contraponto foi extensivamente utilizado em seções de desenvolvimento da forma sonata. Beethoven utilizou a Fuga em algumas de suas músicas mais profundas, tal como na Sonata Hammerklavier, op.1O6, e no Quarteto de Cordas em Dó# menor, op.131. Schubert reconheceu em seus últimos meses de vida o valor do estudo do contraponto, e existe escrita contrapontística em alguns de seus últimos trabalhos, como por exemplo no Quinteto para Cordas em Dó. Entre os compositores românticos, Mendelssohn foi um hábil contrapontista, muito influenciado por Bach. Brahms e Bruckner também utilizaram o contraponto em suas sinfonias, como Wagner, freqüentemente com propósitos dramáticos, em suas óperas. Berlioz, embora se opondo ao contraponto acadêmico, escreveu movimentos de individualidade contrapontística em vários trabalhos. Os compositores italianos fizeram menor uso do contraponto. No século XX, compositores pós-vagnerianos como Strauss e Mahler, como também Schoenberg e sua escola (seguindo o modelo de Brahms), utilizaram largamente o contraponto. Stravinsky e Hindemith, mais neo-clássicos no estilo, estão mais diretamente em débito com exemplos barrocos, particularmente Bach, enquanto que alguns compositores ingleses e franceses utilizaram como modelo trabalhos do século XVI.

Traduzido por:

Orlando Marcos Martins Mancini

2004

Extracted from
The Grove Concise Dictionary of Music
edited by Stanley Sadie
© Macmillan Press Ltd., London.