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Hoje é dia: 20/09/2021



Counterpoint

 
by Walter Piston

Tradução da introdução feita por Orlando Marcos Martins Mancini, das páginas 9-12 do livro

Counterpoint de Walter Piston, Victor Gollancz Ltd, 1982.


Introdução

A arte do contraponto é a arte de combinar linhas melódicas. A essência contrapontística, como um ingrediente de vitalidade interior à música, é, entretanto, alguma coisa mais profunda do que um processo de manipulação e combinação sendo encontrado em aproximadamente toda a música. O que significa que toda a música possui algum grau contrapontístico. Implícito na origem do termo contraponto está a idéia de discordância. A atuação recíproca de concordância e discordância dos fatores que formam a textura musical, constitui o elemento contrapontístico em música.

O estudo dessas qualidades de concordância e discordância, ou, para dizê lo diferentemente, de dependência ou independência; é o cerne da questão envolvida no estudo. Por exemplo, dependência ou concordância, seria fornecida harmonicamente pelo uso de consonâncias e pela coincidência do ritmo harmônico com o ritmo melódico. Ritmicamente, seria a coincidência de acentos e tempos fortes, ou o da atividade rítmica. Nas linhas melódicas, seria o que é chamado de movimento similar (direto ou paralelo), e o clímax, ou ponto culminante, alcançado simultaneamente por vozes diferentes. Estas características revelam a natureza contrapontística da textura musical. Por outro lado, independência ou discordância, é obtida pelo uso de dissonâncias e tons alterados; evitando a coincidência das acentuações rítmicas e tempos fortes; pela oposição de curvas melódicas, fazendo uso de movimento obliquo e contrário. Estes são alguns dos meios que contribuem para o estilo contrapontístico. O processo contrapontístico difere de acordo com a atitude do compositor no lidar com a complexidade desses elementos de dependência ou independência. Uma prática comum no contraponto tal como a encontrada na harmonia dos séc. XVIII e XIX, não existe. Durante esse período, as diferenças nos acordes utilizados, e na maneira de sua utilização, não são o suficiente significante para invalidar a descrição de “uma prática harmônica comum para todos os compositores desse período”, enquanto que o tratamento dos elementos contrapontísticos por esses mesmos compositores mostra a maior divergência possível. Historicamente, existem três grandes marcos na arte do contraponto. O primeiro foi a virtualmente absoluta polifonia do período Gótico, seguindo se pelo contraponto elaborado e virtuoso da escola franco flamenga. O segundo foi a música da segunda metade do séc. XVI, exemplificado por Palestrina, enquanto que o terceiro, o do Barroco, culminou nas obras de Johann Sebastian Bach. O primeiro dos períodos mencionados cessou de exercer uma influência ativa na nossa música, mas Palestrina e Bach se tornaram os maiores símbolos da polifonia. Uma consideração de momento das obras desses dois homens revela a existência de dois tipos de proximidade, duas atitudes contrapontísticas distintas, ou estilos contrapontísticos distintos. Ambos são de extrema importância no desenvolvimento da arte da música e o estudo de ambos é indispensável para todos os músicos e estudantes de música. Será o propósito do presente estudo, entretanto, examinar somente o tipo de técnica contrapontística representada por Bach. O contraponto do Séc. XVI, mais propriamente o contraponto do chamado estilo de Palestrina foi tratado de forma exemplar no estudo publicado por Jeppsen, Merritt e Morris, de forma que qualquer tentativa de contribuição de minha parte seria redundância. O estilo de Palestrina é especificamente vocal polifônico dentro de limites e restrições bem definidos. A presença de um texto significa a introdução de um elemento extramusical que pode fornecer a base rítmica de um grande momento musical. A preocupação com o material harmônico é restrita se compararmos com o idioma praticado nos séculos posteriores. Não devemos esperar, entretanto, que esta música nos mostre os princípios aplicados no grande volume da literatura musical próximas ao nosso tempo. Enquanto que o estudo do estilo de Palestrina é de inestimável valor não somente a um compositor coral, mas a todos os estudantes de música, existem muitas razões de porque o contraponto representado pelo estilo de Bach é necessário. Essa atitude Harmônica, rítmica e instrumental através da textura musical, não é somente típica em Bach e seus predecessores imediatos, mas podemos seguramente afirmar que a maioria dos compositores posteriores a Bach, incluindo os do presente século [XX], pesquisaram sua maneira como a ideal da técnica contrapontística. Não devemos esquecer que o propósito essencial do estudo da técnica em música é desvendar como a música tem sido escrita para que possamos aventar como ela poderá ser escrita no futuro. No presente livro está a literatura de aproximadamente 300 anos com o intuito de formar uma base lógica para o estudo do contraponto. Os tradicionais cursos e tratados de contraponto dão pouca atenção a harmonia e ao ritmo, e não fazem, via de regra, a utilização de exemplos e princípios atuais. Os estilos adotados variam de um arcaico estilo modal para os de uma modernidade especulativa. Em geral existe uma inadequada preparação para o estudo da fuga, de modo que os estudantes se encontram perdidos na tentativa de conciliar os procedimentos de Bach com o que eles aprenderam de contraponto. Mas a principal falha em praticamente todos os métodos tradicionais é que eles não procuram dar conhecimento sobre a prática dos compositores, mas enfatizar direções muito rígidas na escrita da música, apesar da verdade de que nenhuma pessoa pode saber como uma música será escrita dez anos depois. Pode ser útil deixar uma palavra de aviso: este livro não é para ser um estudo do estilo pessoal de Bach. Muitos trabalhos de Bach serão incluídos nos exemplos, pois sua capacidade criativa é realmente inegável. Mas o esforço será o de continuadamente incluir tantos compositores quanto possível para a investigação dos vários princípios que envolvem a escrita contrapontística. Mesmo assim, não podemos dizer que exista uma prática comum no contraponto entre os compositores dos últimos 300 anos, a diferença não está nos elementos e princípios, mas no grau de sua aplicação. Espera-se que o estudo desses elementos sejam úteis ao entendimento da música de todos os tempos, especialmente a nova música contemporânea, e, que os compositores sejam estimulados a contribuir com suas próprias práticas individuais no que se refere aos procedimentos contrapontísticos. Gostaria também de alertar os estudantes para que não fizessem um fetiche do contraponto ou da técnica contrapontística como sinônimo de BOM. Muitas das grandes músicas do mundo são muito pouco contrapontísticas. Além disso, a qualidade contrapontística não é absoluta sozinha, variando muito, mesmo em trabalhos reconhecidos distintamente como contrapontísticos, tal como as fugas de Bach. Como preparação para o estudo que se segue, é esperado que o estudante tenha uma formação sólida nos princípios da harmonia. Alguns anos de estudo de harmonia são o suficiente. O conhecimento de acordes cromáticos é vantajoso, mas não estritamente necessário. Muito importantes são os princípios fundamentais das funções tonais e sensíveis (notas condutoras). Fórmulas harmônicas e algumas seqüências pré-estabelecidas têm provado muito valor para a organização de frases. Os exercícios dados no final de cada capítulo não precisam ser muito numerosos, mas o suficiente para atender as necessidades individuais de cada estudante. Eles são idealizados para mostrar um tipo de material para ser utilizado. É esperado que os estudantes ou professores não se limitem aos exercícios por mim aqui sugeridos. Os estudantes que não tem facilidade em leitura na clave de Dó (soprano, alto e tenor), devem procurar utilizá las o mais possível (exercícios de leitura; fazer exercícios forçando sua utilização). O contato com essas claves é de extrema valia como, por exemplo, em transposição, e é o único meio de estarmos habilitados a ler as obras dos grandes mestres.

W.P